As 33 Virtudes
Verdade
'Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura'
Ser verdadeiro é dizer o que você realmente pensa, mesmo sabendo que pode te prejudicar, sem ser rude e sem projetar a sua raiva no outro. Não há progresso da alma sem veracidade: como evolui uma coisa que não se enxerga? A verdade, dita com amor e brandura, é um ato de caridade.
O que é verdade
Na Virtologia de Eduardo Casarotto, ser verdadeiro é viver e dizer a sua verdade, mesmo quando isso custa a aprovação ou as pessoas. É repudiar a malandragem, a esperteza e o querer levar vantagem. Não é tarefa fácil para os orgulhosos, que mentem para agradar, mentem para não desagradar e mentem até para si mesmos, fingindo ser o que não são.
Como o Manual lembra, a verdade é a base de todas as virtudes do homem. Sem veracidade, o progresso da alma é impossível, porque não se evolui aquilo que não se enxerga. É melhor lidar com a verdade feia do que com a mentira bonita.
A mentira como mecanismo de defesa
A gente aprende a mentir na infância, na primeira vez que vê alguém escapar de um desprazer mentindo. É o tronco cerebral: afastar o desprazer, aproximar o prazer. A mentira vira hábito, e a pessoa nem calcula mais que está mentindo. O Eduardo aponta a distância entre a sua verdade e o que você entrega alterado nas convenções sociais: o tamanho dessa distância é o tamanho da sua alienação sobre si mesmo. A persona é feita para lidar com o meio, e para lidar com o meio a gente altera a verdade.
O teatro interno
Apoiado em Melanie Klein, o Eduardo explica por que viver a verdade é viver a realidade. Você não se relaciona com as pessoas reais, e sim com os objetos internos que montou delas, por imaginação e associação. Esses objetos conversam entre si num teatro interno e produzem um resultado, e é a partir desse resultado, e não do real, que você reage.
Objeto interno
O bonequinho que você monta de cada pessoa e tema, feito da sua imaginação e das associações com tudo que já viveu. Nunca é a pessoa real.
Teatro interno
Os objetos internos trocam ideia entre si, cada um com suas vontades, e geram um resultado. Você acaba vivendo dentro dessa encenação.
Gangue narcisista
O nome desse bando de objetos que domina enquanto você age pelo primitivo. Ela não é você, e perde força quando você expõe a verdade ao outro.
Quando você guarda a sua verdade por dentro, o resultado do teatro interno cresce e ganha força. Quando você apresenta essa verdade ao outro, dá a ele a chance de dizer "não é bem assim", e o objeto perde força. Você tira poder da gangue narcisista e volta para a realidade. Por isso viver na verdade é, no fundo, viver menos alienado de si mesmo e dos outros.
Como desenvolver a verdade
A afirmação da Verdade tem como refrão-âncora "Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura". Ela se lê em voz alta e se escreve à mão, todos os dias, junto dos sete passos do protocolo. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual, sem encurtar nem modificar.
A técnica completa está na página Afirmações Mentais. Abaixo, os mesmos sete passos aplicados à Verdade. Siga por inteiro: pular qualquer um reduz a inscrição da virtude no cérebro.
Os sete passos da Verdade
Entender
Entender que a verdade é a base de todas as virtudes, que se diz com amor e brandura, e que viver a verdade é viver na realidade. É o que você leu na seção anterior.
Reconhecer
Enxergar onde você mente para agradar, para não desagradar e para si mesmo. Quanto da sua verdade você altera para caber nas convenções sociais e na aprovação.
Afirmar
Ler a afirmação da Verdade em voz alta de manhã e à noite, e escrever uma vez por dia. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual.
Ancorar
Levar o refrão "Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura" ao longo do dia, no celular, num cartão, na mente. É a âncora que mantém a verdade ativa.
Treinar
Fazer o exercício da verdade, mesmo sem vontade. Praticar sem vontade é o mais valioso: é quando a nova via neural se fortalece.
Pausar no gatilho
Quando bater a vontade de mentir para evitar o conflito, ou de despejar a verdade com raiva: respira, conta até cinco e escolhe dizer a verdade com brandura. A pausa interrompe o automatismo.
Registrar e repetir
Anotar no diário onde você viveu a sua verdade e onde a alterou, e repetir o ciclo. O registro consolida, a repetição vira estrutura permanente.
A afirmação da Verdade
Esta é a afirmação canônica, do Manual de Eduardo Casarotto. Leia em voz alta ao menos três vezes por dia e escreva uma vez por dia, por inteiro, sem alterar as palavras.
Eu sou a virtude em forma de verdade
Não tenho mais medo de perder a aprovação das pessoas
Não tenho mais medo de perder as pessoas
Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura
Elevo minha consciência e compreendo que a verdade evolui o outro
Desde que seja transmitida com brandura
Eu não projeto minhas angústias e raiva no outro e racionalizo que é verdade
Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura
A brandura e a humildade me fazem pensar com cautela sobre a verdade do outro
Eu domino meu orgulho e vivo minha verdade
Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura
A individuação não me deixa ficar em transferência com meu próximo
Eu sou pleno e completo
Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura
Não julgo para dizer a verdade
Escuto a verdade que me dizem com flexibilidade e brandura
Escuto a verdade que me dizem com humildade e paciência
Eu digo e vivo a verdade com amor e brandura
O exercício
Faça a sua contabilidade da verdade. Ao longo de um dia inteiro de relações, observe o quanto você vive, fala e expressa a sua verdade, e o quanto você a altera para as convenções sociais e para a aprovação. Anote as verdades que você evita dizer, e para quem. Depois, escolha uma delas e entregue com amor e brandura, sem projeção, sem raiva, sem transferência. Lembre que dizer a verdade não é ser rude nem despejar o seu ódio racionalizado como verdade.
Treine também o outro lado: escutar a verdade que te dizem. Procure quem te critica, inclusive quem te inveja, porque a inveja é cruel e mira o seu ponto mais fraco. A regra é simples: se incomodou, é seu. Se gerou sintoma em você, olhe para aquilo com humildade e paciência, e devolva para os seus pais o que era transferência, limpando o objeto interno.
Medite sobre as máscaras que você veste para não entrar em conflito e visualize-se dizendo a verdade com serenidade. Reflita: "onde eu uso a palavra respeito como desculpa para não ser verdadeiro? Que verdade eu estou guardando por medo de perder alguém?". Pratique: hoje, estique o elástico de alguém com amor e brandura, dizendo uma verdade que você vinha evitando, sem castrar o outro e sem se castrar.
Para o terapeuta: o manejo
Cuidado com a palavra respeito. Respeitar é não julgar, permitir que o outro erre e aceitar a faixa de evolução dele sem gerar ódio. Não é usar o "respeito" para castrar, impor pudor ou justificar o silêncio que evita o conflito. Dizer que o outro "não está preparado para a verdade" é, no fundo, julgá-lo. A gente evolui esticando elástico: com amor e brandura, mas esticando. No consultório, monte os objetos internos do cliente a partir das histórias que ele conta, decifre o teatro interno e devolva a verdade sem projeção. Para isso, domine transferência, contratransferência e projeção, e cheque sempre se a verdade que você entrega é dele ou sua.
Como a verdade aparece na vida
Quando a verdade cresce, a distância entre quem você é e o que você mostra diminui, e com ela a alienação sobre si mesmo. Você para de mentir para agradar e passa a dizer o que pensa com amor e brandura, mesmo quando é desconfortável. Deixa de evitar o conflito só para manter todo mundo em falsa paz, e percebe que era exatamente esse silêncio que travava a sua evolução e a das suas relações.
A pessoa verdadeira também escuta melhor. Recebe a crítica sem se destruir, separa o que é seu do que é do outro, e devolve as demandas que projetava. Dominando o orgulho, ela vive a própria verdade sem ficar em transferência com o próximo. E entende que entregar a verdade ao outro, com brandura, é esticar o elástico dele: um ato de caridade e amor, não de agressão.
Você diz o que pensa com calma e acolhimento, sem agredir. Percebe quando está alterando a verdade para ser aprovado e escolhe ser inteiro. Recebe uma crítica difícil e pergunta "o que aqui é meu?" em vez de se defender. E fala a verdade até sobre você, mesmo quando não é uma coisa boa a seu respeito.
Perguntas para se questionar
Reflita sobre cada pergunta com honestidade e, se puder, discuta com outras pessoas. É encarando as próprias mentiras que a verdade começa a aparecer.
- De 0 a 10, o quanto você evita magoar as pessoas com a verdade?
- Qual a verdade sobre os seus familiares e amigos que você nunca disse?
- Falar a verdade pode te trazer mais problemas ou mais soluções?
- Você diz o que realmente pensa de forma calma e acolhedora, ou com agressividade?
- Você é verdadeiro consigo mesmo? Você acha que vive a sua verdade?
- Você acha que todos merecem saber a verdade?
- Você fala a verdade, mesmo quando não é uma coisa boa a seu respeito?
- Uma pessoa orgulhosa mente mais, ou fala mais a verdade?
- O que você acha da frase: "a mentira tem perna curta"?
- Se tivesse que falar uma verdade nunca dita, o que e para quem você diria?
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