Lei 11 de 22 · o contexto absoluto da existência
A Lei da Polaridade
A pergunta não é como elimino isto. É para onde, nesta régua, eu quero caminhar hoje.
Os opostos são idênticos em natureza e diferentes apenas em grau. Medo e coragem são o mesmo eixo, e por isso não se arranca um estado: desloca-se ele. Traz o erro de manejo mais comum da clínica, que é declarar guerra a metade da própria pessoa, e a virtude que sustenta a transmutação.
Não existe termostato que crie o frio
Existe uma régua só, com mais calor de um lado e menos calor do outro. O frio não é uma substância, é a ausência de calor na mesma escala.
As emoções funcionam assim. O medo não é o contrário da coragem: é o mesmo eixo, num ponto mais baixo.
Por isso o corajoso não é quem não sente medo. É quem caminha na régua
Isso muda a estratégia inteira. Em vez de tentar arrancar a raiva, a tristeza ou a insegurança, guerra que ninguém vence, você aprende a deslocá-las alguns graus.
Fixar-se num polo e declarar guerra ao outro
O desalinhamento é sempre o mesmo movimento: escolher um polo, negar o outro, e combatê-lo dentro e fora de si.
Como isso aparece
A mulher que se proíbe de sentir raiva, porque pessoa boa não sente isso, não elimina a raiva. Empurra ela para o corpo, para a ironia, e para a explosão trimestral.
O casal que jura nunca brigar costuma congelar. O que aprende a brigar bem, no eixo do respeito e sem descer ao polo do desprezo, permanece vivo. O oposto do amor não é o conflito. É a indiferença, que é sair da régua.
O mesmo interno que liderava para o crime lidera a ala de estudos. A liderança é o eixo. O polo é escolha. Os melhores programas não amputam a característica, transmutam.
Achar que tudo é só questão de grau
O excesso aqui é usar a lei para relativizar o que não é relativo.
Violência não é um ponto baixo da régua do afeto. É outra coisa.
Nem todo comportamento é transmutável no mesmo eixo, e tratar tudo como grau tira da pessoa o direito de nomear o que sofreu.
A lei descreve estados internos e características. Não é passaporte para relativizar conduta de terceiro.
Como ela aparece e como é pedida
Como se expressa quando falta
Ela fala de si em absolutos: eu sou assim, eu nunca fui de sentir isso.
Existe uma emoção inteira que ela não admite sentir.
Ela condena no outro exatamente o que recusa em si.
Como é pedida, sem ser nomeada
Eu queria não sentir isso.
Eu tenho que parar de ser assim.
Ou tanto faz, ou é oito ou oitenta comigo.
Que sintoma a ausência dá
Explosão periódica depois de longos períodos de contenção.
Somatização, porque o polo negado sai pelo corpo.
Julgamento severo dos outros, e cansaço de manter o julgamento.
Relações congeladas, sem briga e sem calor.
Sensação de estar sempre atuando um papel.
Carl Jung tomou do grego o conceito de enantiodromia, a conversão de um extremo psíquico no seu oposto, e mostrou em Tipos Psicológicos, 1921, que o unilateral acumulado na consciência cobra o polo negado pela via do inconsciente.
A Terapia Comportamental Dialética de Marsha Linehan, 1993, referência internacional para desregulação emocional grave, funda-se exatamente na sustentação simultânea dos polos, aceitação radical e exigência de mudança. A saúde não mora num extremo, e sim na capacidade de transitar entre eles.
O que perguntar e o que escutar
As perguntas
Tem alguma emoção que você não se permite sentir?
O que acontece quando ela aparece mesmo assim?
Que tipo de pessoa você não suporta? Guarde a resposta, ela costuma ser o polo negado.
Quando você sentiu isso pela última vez, o que veio antes?
Se essa raiva pudesse virar outra coisa mais útil, o que ela viraria?
Nas necessidades: a lei dá a chave da homeostase. Cada uma das 51 tem faixa saudável entre a carência e o excesso, e os dois adoecimentos são polos da mesma régua. Equalizar é caminhar nela, não sair dela.
A virtude de apoio: a Humildade, pedra angular da Pirâmide, porque é ela que permite reconhecer-se portadora dos dois polos: capaz do melhor e do pior, e por isso responsável pela direção.
O trabalho na sessão: legitimar o eixo inteiro e treinar o deslocamento. Da raiva à firmeza, da firmeza à serenidade.
A versão para a cliente
Para falar com a pessoa
Pensa num termostato. Não existe um botão que cria frio. Existe uma régua só, com mais calor de um lado e menos do outro.
Com as emoções é igual. O medo não é o contrário da coragem, é a mesma régua num ponto mais baixo. Por isso a pessoa corajosa não é a que não sente medo, é a que consegue andar na régua.
Isso muda o que a gente vai fazer aqui. Não vamos tentar arrancar a raiva de você, porque essa briga ninguém ganha. Vamos aprender a deslocar ela alguns graus, da raiva para a firmeza, e da firmeza para a calma.
Alinhada, a pessoa para de guerrear contra metade de si mesma.