As 33 Virtudes · nº 3
Aceitação
'Eu aceito a vida'
A aceitação é uma das virtudes mais transformadoras. Ela dissolve a raiva, a tristeza e a depressão, porque desmonta o grande mal invisível por trás delas: o controle. Aceitar não é aprovar, é parar de lutar contra o que já é.
O que é aceitação
Aceitação é abrir mão do controle sobre o que não pode ser mudado: as perdas, os defeitos próprios e alheios, o corpo, os pais, o passado. É deixar de funcionar a partir da dor. Como o Eduardo resume: parar de escutar a dor, dizer "está tudo bem, não quero mais resolver você", sem por isso parar de viver.
Um ponto que a aula deixa claro: aceitar não é aprovar, nem ressignificar. Não é "meu pai era bruto porque era do interior". É simplesmente "foi assim, e ponto". A aceitação não muda o passado, muda a sua relação com ele.
Três estados diante da vida
Existem três posições possíveis diante do que não se pode mudar. Duas são neuroses; só uma é a virtude.
Conformado
Não age, mas carrega a dor por dentro. Fica parado, sem desejo nem ambição. Não faz nada com aquilo, mas ainda gera sintoma. É a dor sem ação.
Inconformado
Age a partir da dor. Reage, ataca para se defender, vive com uma energia agressiva. É a dor em movimento.
Aceitação
Desiste da dor. Não fica parado nem reage a partir dela. "Eu não funciono mais a partir da dor." Não gera sintoma.
O coração da aceitação: o controle
Falar de aceitação é, no fundo, falar da filosofia do controle. O controle é um mecanismo de defesa: a gente tenta controlar para que não dê errado, para não sentir dor. Mas o Eduardo é direto: controle não é saudável, não é humano, todo traço de controle é neurótico. Toda vez que a pessoa entra no movimento do controle, ela se afasta da realidade e, com ela, da solução.
A resposta espanta: quase nada. A gente só tem controle sobre as próprias atitudes, e mesmo assim só quando age com consciência plena. Todo o resto é falso controle, o controle ilógico e inconsciente. Perceber isso é o começo da aceitação.
Na aula, o Eduardo mostra as raízes: pequenos erros com grandes punições, o pai que só cobra, a estrutura do TOC (organização, simetria, perfeição), e a formação reativa ao caos (quem cresceu na desordem tenta controlar tudo). Quanto menos afeto e reconhecimento a pessoa recebeu, mais controladora se tornou.
Como desenvolver a aceitação
A afirmação da Aceitação tem como refrão-âncora "Eu aceito a vida". Ela se lê em voz alta e se escreve à mão, todos os dias, junto dos sete passos do protocolo. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual, sem encurtar nem modificar.
A técnica completa está na página Afirmações Mentais. Abaixo, os mesmos sete passos aplicados à Aceitação. Siga por inteiro: pular qualquer um reduz a inscrição da virtude no cérebro.
Os sete passos da Aceitação
Entender
Entender que aceitar é abrir mão do controle sobre o que não pode ser mudado, e que o controle é neurótico. É o que você leu na seção anterior.
Reconhecer
Enxergar em você o conformado ou o inconformado: onde você carrega a dor parado e onde você reage a partir dela. E reconhecer onde você tenta controlar o que não é seu.
Afirmar
Ler a afirmação da Aceitação em voz alta de manhã e à noite, e escrever uma vez por dia. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual.
Ancorar
Levar o refrão "Eu aceito a vida" ao longo do dia, no celular, num cartão, na mente. É a âncora que mantém a aceitação ativa.
Treinar
Fazer o exercício da aceitação, mesmo sem vontade. Praticar sem vontade é o mais valioso: é quando a nova via neural se fortalece.
Pausar no gatilho
Quando a raiva do inconformismo ou a vontade de controlar disparar: respira, conta até cinco e escolhe "eu aceito isso". A pausa interrompe o automatismo.
Registrar e repetir
Anotar no diário o que você aceitou hoje e o que ainda resiste, e repetir o ciclo. O registro consolida, a repetição vira estrutura permanente.
A afirmação da Aceitação
Esta é a afirmação canônica, do Manual de Eduardo Casarotto. Leia em voz alta ao menos três vezes por dia e escreva uma vez por dia, por inteiro, sem alterar as palavras.
Eu sou a virtude em forma de aceitação
A partir desse momento eu aceito a vida
Eu aceito as coisas que não podem ser mudadas
Eu aceito o fluxo natural da vida
Eu aceito não ter controle sobre os outros
Eu aceito a vida
Eu aceito não ter controle dos acontecimentos e as coisas saírem do planejado
Eu aceito a vida
Eu aceito a perda das pessoas que eu amava
Eu aceito a perda de sonhos que não se realizaram
Eu aceito a perda de tudo que era bom e foi me retirado
Eu aceito a vida
Eu aceito os outros com seus defeitos
Eu aceito meus defeitos
Eu aceito minhas imperfeições
Eu aceito a vida
Eu aceito meu corpo como ele é
A raiva não faz mais parte mim
Pois eu aceito a vida
A tristeza e a depressão não fazem mais parte de mim
Pois eu aceito a vida
Aceito meus pais como eles foram e são
Aceito tudo que não recebi em minha vida e não quero mais mudar isso
Eu aceito a vida
Aceito as coisas ruins que me aconteceram, eu não tenho mais medo delas
Eu aceito tudo que já me aconteceu
Eu aceito meu passado
Eu aceito meu futuro
Aceito não ter recebido amor da forma que gostaria
Aceito dar mais amor do que receber
Aceito não ter sido amado da forma que gostaria
Aceito não ser amado
Aceito que os outros não entendem minhas vontades e desejos
Eu aceito a vida
Eu aceito novos começos
Eu aceito novas pessoas
Eu aceito as diferenças
Eu aceito as mudanças não planejadas
Eu aceito as dificuldades
Eu aceito a mim mesmo como eu sou
Aceito os outros como eles são
Eu aceito a vida
O exercício da aceitação
Faça uma lista bem grande de tudo, até das mínimas coisas: as dificuldades, tristezas, mágoas e ódios de cada situação ou pessoa. Depois, diante de cada item, trabalhe para aceitar, dizendo com carinho e tranquilidade: "eu aceito a minha vida como ela foi, e não quero mais mudar o que não dá para ser mudado". Aceite as piores coisas e complete: "eu aceito que isso aconteceu comigo e tudo bem. Eu vou construir a minha vida a partir de hoje".
Observe também as pequenas coisas que te tiram do sério, ficar nervoso porque está chovendo, ansioso numa fila, bravo porque alguém passou na sua frente, e comece a aceitar essas pequenas coisas. Para cada dor, faça a pergunta-chave:
"Você gostaria que isso tivesse sido diferente?" Se a resposta ainda for "sim, eu gostaria", a pessoa continua funcionando a partir daquela dor. A cura chega quando ela consegue dizer, sem desdém e sem mágoa: "é a minha vida, foi assim, e eu não preciso mais resolver isso".
Medite sobre as áreas da sua vida onde você luta contra a realidade e visualize-se aceitando as coisas como elas são. Reflita: "o que estou resistindo em aceitar na minha vida? Será que sou uma pessoa controladora, que quer tudo do meu jeito?". Pratique: em vez de lutar contra uma situação difícil hoje, aceite as coisas como elas são e foque no que você pode controlar.
Para o terapeuta: o manejo
O inconformismo do cliente é ouro na investigação: cada cena de inconformismo é representativa de todo um traço que feriu aquela relação. Comece sentindo a dor junto ("que absurdo"), sem trazer um superego que bloqueia. E cuidado com a racionalização ("eu entendo, ele era do interior"): ela vem da resistência, que vem do orgulho. Quando encontrar resistência, dê um passo atrás, trabalhe o orgulho, e só então volte ao ponto da aceitação, sem perder a conexão.
Como a aceitação aparece na vida
Quando a aceitação cresce, a mudança é sentida no corpo e nas relações. A raiva e a tristeza começam a se dissolver, porque não há mais luta contra o que já é. A vida fica mais leve. A pessoa para de querer controlar o mundo e, com isso, passa a suportar o diferente: o outro deixa de ser ameaça e vira alguém que ela consegue aceitar, e até amar.
Imagine um mundo sem controle: mais leve, mais consciente, mais diverso, com boa convivência. É para lá que a aceitação leva, uma dor de cada vez. E ela abre a porta para as outras virtudes: a igualdade, a fraternidade, a brandura, o perdão. Curar o controle resolve, de uma vez, um monte de coisa.
Você se pega dizendo "foi assim" sem revolta. Situações que antes tiravam você do sério passam a incomodar menos. Você percebe quando está tentando controlar e escolhe soltar. E aceita que o outro erra, não entende e é falho, sem que isso vire a sua dor.
Perguntas para se questionar
Reflita sobre cada pergunta com honestidade e, se puder, discuta com outras pessoas. É no atrito com a própria resistência que a aceitação começa a aparecer.
- Quando algo que planejou dá errado, você fica nervoso, ansioso ou triste?
- Se alguém muito próximo morrer, você vai aceitar, mesmo ficando triste, ou vai se revoltar?
- Quando um parceiro amoroso termina o relacionamento, mas você ainda gosta dessa pessoa, você aceita, se revolta ou fica triste?
- Você se acha injustiçado por ter nascido na classe social, família ou condições em que nasceu?
- Você aceita o corpo, a cor da pele, o cabelo, a altura ou alguma deficiência que possui?
- Você já aceitou os acontecimentos ruins da sua infância e adolescência, como abandonos, maus tratos, abusos, separações, traições, perdas e decepções?
- Qual é a diferença entre aceitação e conformismo?
- Você aceitou as coisas ruins que o seu pai e a sua mãe fizeram com você?
- Aceita que outras pessoas tenham mais que você?
- Você aceitou os erros que cometeu?
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Escolha uma das perguntas acima e responda no grupo. Trocar com outras pessoas aprofunda a aceitação.
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