As 33 Virtudes
Responsabilidade
'Eu me responsabilizo por mim mesmo'
Uma das virtudes mais pesadas, e por isso mesmo das mais libertadoras. O Eduardo Casarotto separa duas coisas que a gente confunde a vida toda: culpado é quem vai pagar, responsável é quem vai resolver. Sair da culpa e assumir a responsabilidade é uma mudança de posição diante de tudo o que aconteceu, e isso liberta.
O que é responsabilidade
A primeira coisa a cravar: o contrário de responsabilidade é a posição de culpa. Não se pode confundir responsável com culpado. Como o Eduardo resume: responsável é quem vai resolver, culpado é quem vai pagar. As pessoas, por instinto primitivo, jogam a culpa dos seus infortúnios nas outras pessoas, no destino, em Deus, e com isso criam inércia. É muito mais fácil dizer que o responsável é qualquer outro, menos você, mas assim os assuntos ficam eternamente sem solução.
A: "não é justo, por que Deus fez isso comigo, por que eu não fiz o seguro, a segurança pública é um caos". B: "já aconteceu, o que eu posso fazer agora para conseguir outro carro e para evitar que aconteça de novo?". Uma é passado e culpa; a outra é futuro e solução. Em qual posição você acha que o problema realmente se resolve?
Três palavras que revelam a posição
Dá para saber na hora se alguém está na responsabilidade ou na culpa só ouvindo o discurso. Reveja seus pensamentos e palavras.
Responsabilidade
O discurso é sobre futuro, coisas boas e soluções. "Como eu vou resolver isso? O que eu faço a partir de agora?" Entra em ação.
Culpa
O discurso é sobre passado, coisas ruins e problemas. "Que merda foi essa, por que isso aconteceu, se tal coisa não tivesse..." Busca culpados e não age.
O sinal
Enquanto a pessoa mostra o sofrimento, ela mostra que ainda se sente culpada. Quando assume a responsabilidade, a dor passa e ela caminha.
O que é seu e o que não é
Palavra-chave aqui, como na aceitação, é controle. Querer controlar o que não está no seu controle não é responsabilidade: cai em culpa, autossabotagem e defesa. O Eduardo divide o que nos acontece em três aspectos, para separar o que é de fato sua responsabilidade.
Pré-programados: o que alguns chamam de destino ou missão, não acessível e não negociável. Ficar analisando isso é perda de tempo. Influências externas: ações do mundo sobre você, sempre vão existir, pois onde há vida há interação do bem e do mal. Não dá para justificar a sua não ação nelas. Comportamentais: a sua forma de pensar e agir. É aqui que você tem influência e pode mudar. É aqui que você trabalha, com autoconhecimento.
Culpa real e culpa ilógica
A culpa real só existe quando praticamos o mal premeditadamente, de vontade própria e conscientes das consequências. Todo o resto é culpa ilógica: um sentimento gerado pela frustração de desejos que não se realizaram. No exemplo do pai internado que falece justo no dia em que o filho, exausto, não foi visitá-lo, a mente imatura sente culpa. Mas o pai não morreu por um mal premeditado; é a dor da perda virando culpa. Quando falta a competência da aceitação, a gente cria culpa por qualquer frustração.
Tudo começa no desejo. Desejo não realizado vira frustração, que vira ódio, que em ação vira destruição, que desemboca em culpa, e a culpa se expressa em autossabotagem e reparação. É a teoria central da psicanálise. E tem um atalho: aceitar o desejo não realizado desmonta a sequência inteira de uma vez. Por isso aceitação e perdão são tão poderosos, e por isso não há responsabilidade sem aceitação.
A civilização aprendeu que a única forma de acabar com a culpa é a punição, então quem se sente culpado inconscientemente se pune. Isso aparece como autossabotagem (deixar de fazer, procrastinar, brigar com quem se ama) e como reparação (não saber receber elogio nem presente, não conseguir dizer não, sentir-se sempre devedor). Ambas vêm da culpa, e a culpa vem do desejo frustrado.
Como desenvolver a responsabilidade
A afirmação da Responsabilidade tem como refrão-âncora "Eu me responsabilizo por mim mesmo". Ela se lê em voz alta e se escreve à mão, todos os dias, junto dos sete passos do protocolo. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual, sem encurtar nem modificar.
A técnica completa está na página Afirmações Mentais. Abaixo, os mesmos sete passos aplicados à Responsabilidade. Siga por inteiro: pular qualquer um reduz a inscrição da virtude no cérebro.
Os sete passos da Responsabilidade
Entender
Entender que responsável é quem resolve e culpado é quem paga, que o contrário da responsabilidade é a posição de culpa, e que a culpa vem de um desejo frustrado. É o que você leu na seção anterior.
Reconhecer
Ouvir o próprio discurso: onde ele está no passado, no problema e na busca de culpados. Reconhecer onde você se sabota, onde não sabe receber e onde tenta controlar o que não é seu.
Afirmar
Ler a afirmação da Responsabilidade em voz alta de manhã e à noite, e escrever uma vez por dia. Use sempre a afirmação canônica integral do Manual.
Ancorar
Levar o refrão "Eu me responsabilizo por mim mesmo" ao longo do dia, no celular, num cartão, na mente. É a âncora que mantém a responsabilidade ativa.
Treinar
Diante de cada situação, treinar o discurso da letra B: futuro, coisas boas e solução. Praticar mesmo sem vontade é o que fortalece a nova via neural.
Pausar no gatilho
Quando pintar a vontade de culpar alguém, se justificar ou se punir: respira, conta até cinco e pergunta "o que eu vou fazer sobre isso agora?". A pausa interrompe o automatismo da culpa.
Registrar e repetir
Anotar no diário onde você assumiu a responsabilidade hoje e onde escorregou para a culpa, e repetir o ciclo. O registro consolida, a repetição vira estrutura permanente.
A afirmação da Responsabilidade
Esta é a afirmação canônica, do Manual de Eduardo Casarotto. Leia em voz alta ao menos três vezes por dia e escreva uma vez por dia, por inteiro, sem alterar as palavras.
Eu sou a virtude em forma de responsabilidade
Elevo minha consciência para perceber minha responsabilidade
Eu me responsabilizo por mim mesmo
Não busco mais culpados pelas coisas ruins que me acontecem
Não me culpo mais pelas coisas ruins que me aconteceram
Hoje eu busco a solução de meus problemas
Eu me responsabilizo por mim mesmo
Busco dar mais que receber
Pois eu me responsabilizo por mim mesmo
Eu dou o amor
Eu dou o acolhimento
Eu dou o cuidado
Não me preocupo mais em receber
Pois eu me responsabilizo por mim mesmo
Sei que o destino não tem culpa de minhas dores
Eu me responsabilizo por mim mesmo
Sei que Deus não tem culpa de meu sofrimento
Eu me responsabilizo por mim mesmo
Sei que meus pais não tem culpa dos meus fracassos
Eu me responsabilizo por mim mesmo
O exercício
Pegue as situações que te pesam e passe cada uma da posição A para a B. Diante de cada dor, em vez de perguntar "de quem é a culpa?", pergunte "o que eu posso fazer agora, o que me impede de agir neste momento?". Depois, vá até a raiz: encontre o desejo frustrado por trás da culpa, a falta, o abandono, o que não foi reconhecido, e trabalhe a aceitação daquilo. "Eu aceito que meu pai não me reconheceu, eu aceito, eu perdoo e não quero mais mudar isso." Aceito o desejo não realizado, saio da sequência emocional e enfim posso assumir a minha responsabilidade.
Medite sobre uma situação que ainda te mantém na culpa e visualize-se saindo dela para a solução. Reflita: "meu discurso sobre isso está no passado ou no futuro? Estou buscando um culpado ou uma solução? Qual desejo frustrado está por trás dessa dor?". Pratique: escolha um problema atual e escreva apenas o que você pode fazer a partir de agora, sem citar nenhum culpado.
Para o terapeuta: o manejo
É matematicamente impossível levar alguém à responsabilidade sem tirá-lo da culpa, e não se tira ninguém da culpa sem descobrir o desejo frustrado. Não trabalhe o comportamento final ("aprenda a dizer não"): isso é sintoma, é enxugar gelo. Vá ao padrão do discurso, ache o desejo frustrado, faça a catarse e, a partir dela, desenvolva a aceitação e o perdão daquela cena, até o nível da competência subir. A catarse é o começo, não o fim. Responsabilidade e aceitação andam juntas.
Como a responsabilidade aparece na vida
Quando a responsabilidade cresce, a pessoa para de terceirizar a própria vida. Sai da posição de criança que quer que o outro a deseje e a resolva, e assume o volante. O discurso muda: menos "por que fizeram isso comigo" e mais "o que eu faço agora". E como a responsabilidade se sustenta em cima da aceitação, a autossabotagem diminui, a autoestima melhora e vem um bem-estar que o Eduardo chama de fenomenal, porque a paz é justamente a ausência de desejo frustrado girando por dentro.
Responsabilizar-se não é se culpar mais, é o contrário: é largar a culpa, aceitar o que não pode ser mudado e focar no que pode. A vida não muda, nós é que mudamos diante dela. Ou, na frase que o Eduardo evoca do Chico: você não pode mudar o início, mas pode construir um final diferente.
Você se pega falando de solução e de futuro, não de culpados. Consegue receber um elogio ou um presente sem se encolher. Diz não sem se sentir devedor. E, quando erra, em vez de se punir, pergunta o que fazer a partir dali.
Perguntas para se questionar
Reflita sobre cada pergunta com honestidade e, se puder, discuta com outras pessoas. É no atrito com a própria culpa que a responsabilidade começa a aparecer.
- Mesmo que tenha feito uma coisa ruim, você assume o que fez?
- Você é capaz de assumir a responsabilidade mesmo que isso te traga uma consequência?
- Você culpa os outros pelos seus erros ao invés de assumir a responsabilidade por eles?
- Você se autopune por suas culpas? Acha isso útil?
- Você busca focar no que pode ser mudado em você ou no que você não pode controlar nos outros?
- Você acha que Deus, sociedade ou sua família foram injustos com você? Ou você sempre tem escolha?
- Quem é a única pessoa que realmente pode te ajudar?
- Você consegue admitir um erro agora que nunca tinha admitido antes?
- Mesmo que não tenha sido o culpado por algo ruim que aconteceu com você, quem acha que deve tomar a atitude para resolver?
- O que acha da frase: "culpado é quem vai pagar, responsável é quem vai resolver"?
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