Transtornos de Personalidade · a base
O que é um Transtorno de Personalidade
O tamanho da distância é o tamanho do transtorno.
Antes de qualquer nome, antes de qualquer tipo, é preciso saber o que faz de um quadro um transtorno. A Virtologia responde isso sem depender de lista de sintomas: o transtorno é a distância entre quem a pessoa é e a máscara que ela ergueu para se proteger. E essa distância se lê por três fatores.
A distância entre o Self e a Persona
Toda pessoa constrói uma Persona: a interface que apresenta ao mundo, feita de máscara social e couraça de caráter. Isso é normal e necessário. O problema começa quando essa Persona se afasta demais de quem a pessoa é.
Quanto mais defesas, mais máscaras, mais a pessoa vive alienada de si mesma, reagindo ao mundo a partir do medo, da necessidade de aprovação ou da vontade de dominar. Os quadros clássicos dos manuais, do narcisista ao evitativo, podem ser lidos como arranjos específicos de couraças e máscaras, formados em resposta a histórias de dor e de falta.
Se o transtorno é a distância entre o Self e a Persona, então a cura precisa obrigatoriamente diminuir essa distância. Qualquer trabalho que ensine a pessoa apenas a administrar melhor a própria máscara não está curando: está aperfeiçoando a defesa.
Como a Virtologia lê o transtorno
O diagnóstico não se faz encaixando a pessoa numa categoria. Faz-se analisando três fatores, cada um medido em níveis, e não em sim ou não.
Funcional ou disfuncional
A pessoa é funcional quando o seu grupo de informações, ou seja, a sua personalidade, consegue fazê-la funcionar nas necessidades humanas e em conformidade com as leis da vida. É disfuncional quando não consegue.
Não é juízo de valor nem impressão geral. É critério operacional, e a escala das necessidades dá a medida: cada necessidade tem uma faixa de homeostase entre 4 e 7. Abaixo há carência, acima há excesso. O que está muito fora dessa faixa sinaliza disfunção naquele ponto.
Cada vez que a pessoa opera contra as próprias necessidades, o organismo produz cortisol e ativa o eixo hipotálamo, hipófise e adrenal. O corpo não concorda com o discurso. Pode-se sustentar verbalmente que viver sem vínculo, sem contato e sem prazer é apenas uma escolha, mas a bioquímica responde de outro jeito.
O substrato neurobiológico
É o hardware físico e químico do cérebro. Autismo, TDAH, transtorno bipolar, esquizofrenia: são estruturas de base, com as quais a pessoa nasceu ou que se instalaram. Isso não se reestrutura por trabalho de virtudes.
E aqui está a mudança de lógica mais importante que a Virtologia propõe sobre este ponto.
Uma pessoa bipolar não é apenas bipolar. Ela tem personalidade, caráter, desejo, mandatos, faixa de evolução, necessidades. Ela tem a Lei do Fluxo inteira operando, exatamente como qualquer outra.
O modelo antigo separava: se era bipolar ou esquizofrênico, ia para a caixa da psicose e ninguém olhava a neurose dela. A Virtologia trabalha o bloco inteiro em todos, independentemente da parte neurobiológica.
Bipolar e disfuncional
A base neuroquímica somada a uma personalidade desestruturada. Os sintomas se amplificam, e quanto mais disfuncional, mais a parte neurobiológica toma a ponta.
Bipolar e funcional
A mesma base neuroquímica, com a personalidade estruturada. A pessoa segue sendo bipolar, mas apenas bipolar. Os dois casos são bizarramente diferentes na prática.
A Virtologia não cura o bipolarismo, o autismo nem o TDAH. O que ela faz é retirar a camada de disfunção que se soma a eles, e essa retirada muda a vida da pessoa mesmo quando a estrutura de base permanece.
O psiquiatra equilibra a parte química. O virtólogo trabalha a parte funcional para que a pessoa funcione. Um não substitui o outro, e reconhecer esse limite faz parte da competência clínica.
O quanto a pessoa está na realidade
Este é o fator que dá o tamanho do quadro, e é o mais sutil dos três. Não se trata apenas de psicose: um indivíduo puramente disfuncional, sem nenhuma base orgânica, também pode estar longe da realidade.
Alguém em crise de pânico com o cérebro em pavor extremo, quando não há nada acontecendo de fato, não está na realidade. E existe uma relação direta com a definição da primeira seção: quanto mais a pessoa se afasta do próprio Self, mais ela se afasta da realidade.
Ilusão e alucinação
Ilusão
Há uma corda no chão e a pessoa vê uma cobra. A percepção distorce algo que existe. É deformação a partir de algo.
Alucinação
Não há nada no chão e a pessoa vê uma cobra. A percepção constrói sem ancoragem. É construção a partir de nada.
A alucinação é um nível acima da ilusão, e as duas são estruturas diferentes. Ambas vivem dentro deste terceiro fator, que funciona como guarda-chuva de tudo o que diz respeito ao contato com o real.
Um teste desconfortável de realidade
Dentro do terceiro fator existe uma pergunta que raramente é feita e que muda a leitura de qualquer caso: o quanto você enxerga o outro como outro?
Enxergar o outro na realidade significa perceber a personalidade dele, as dificuldades dele, o que ele quer e o que não quer. Significa poder ter abnegação de verdade por ele, porque ele existe como pessoa.
O contrário disso é enxergar o outro como ameaça, como desejo, como alguém a agradar, como alguém de quem se precisa ser aceito. Nesse caso, ele não é uma pessoa: é uma figura de papelão que provoca os meus medos e os meus desejos.
Dê uma nota de zero a dez para o quanto você de fato vê as pessoas ao seu redor como elas são, sem passar pela sua ansiedade, pelo seu medo, pelo seu interesse, pelo seu desejo e pelas suas necessidades. Dez significaria não passar nada por você.
Feito com honestidade, esse exercício costuma revelar o quanto quase ninguém vive plenamente na realidade.
Como se mede a distância da realidade
A conta é sempre a mesma, e ela se apoia diretamente nos dois primeiros termos da Lei do Fluxo, o estímulo e a intensidade: a intensidade vivida é compatível com o que de fato aconteceu?
O chefe comenta que o relatório não ficou bom. A pessoa entra em pavor de perder o emprego, não dorme, começa a antecipar demissão e ruína.
O estímulo existiu. A intensidade não corresponde a ele.
A companheira estava com dor de barriga e foi dormir cedo. A leitura que se instala é a de que ela está traindo.
Aqui entram os fatores que ameaçam aquele cérebro: uma traição no passado, uma mãe traída, a dependência financeira, o medo de perder. A distância entre a fantasia e o que aconteceu é o que se mede.
A mãe cai e quebra o dedo do pé. A pessoa entra em pavor de perdê-la, chora, tira o filho da escola, chama o marido do trabalho e mobiliza a família inteira.
Dar suporte seria proporcional. A mobilização em estado de pavor não é.
Não é só intensidade para cima. A mãe morre e a pessoa não sente nada, zero intensidade, tudo tranquilo porque mãe morre mesmo. Isso também é incompatível com a realidade.
Houve uma perda. Alguma coisa precisa ser sentida. Mesmo quem tem a relação mais madura possível com a morte sente a perda. Ausência de resposta é tão diagnóstica quanto excesso.
Neurose, psicose e perversão
As três estruturas da psicanálise clássica não são o eixo da Virtologia, mas vale conhecê-las, porque são o vocabulário que o mercado ainda usa. Elas se resumem a um jogo entre o desejo e a regra do jogo, ou seja, as regras da realidade e da sociedade.
Neurose
A regra do jogo ganha e o desejo é recalcado. A pessoa está na realidade: não alucina, não delira. Apenas não põe o desejo para fora.
Psicose
A pessoa ignora a regra do jogo e põe o desejo para fora assim mesmo. O contato com a realidade se altera.
Perversão
A pessoa altera a regra do jogo para que o desejo possa ser realizado. Constrói uma nova regra que autoriza o que deseja.
Casarotto apresenta as três estruturas justamente para que o aluno possa deixá-las de lado com consciência. A Virtologia não organiza o transtorno por elas: organiza pelos três fatores desta página, que fazem a Lei do Fluxo inteira operar em qualquer caso, inclusive nos de base orgânica.
Por que o rótulo não decide o tratamento
Os manuais categoriais organizaram o diagnóstico por caixas durante quase um século. O modelo acumulou críticas: os quadros nunca vinham puros, a mesma pessoa preenchia critérios de várias caixas, e o rótulo dizia pouco sobre prognóstico e tratamento.
Na leitura por fatores, o nome deixa de ser pré-requisito. Você não precisa fechar uma classificação para saber por onde começar, porque a base da Pirâmide das Virtudes acerta em qualquer caso. As nomenclaturas seguem úteis para conversar com outros profissionais, com convênios e com quem chega já se dizendo portador de algum diagnóstico. Elas servem à comunicação, não à condução.
Quadros com risco, delírio franco, base neuroquímica, uso de substâncias, ideação suicida ou risco a terceiros exigem acompanhamento médico e psiquiátrico. Sobre esses, o vocabulário muda de cura para contenção, manejo e redução de dano. A estruturação de virtudes soma ao tratamento e trabalha a parcela neurótica, mas jamais substitui a medicação nem cura a estrutura de base.