Necessidades Humanas · Grupo 2
Possuir Objetos: a identidade que se apoia no material
Uma gaveta com coisas próprias já muda a forma como o cérebro se percebe.
Ter coisas que são minhas é âncora do senso de si, não consumismo. Tirar isso de alguém desorganiza a psique. E o desapego forçado, vendido como evolução espiritual, faz o caminho ao contrário: destrói identidade e constrói persona.
A caneca que é sua
Existe uma caneca no armário que é sua. Se alguém usa, incomoda. Não é apego a louça. É que aquele objeto, de tanto ser usado por você, virou um pedaço de fora do seu senso de quem você é.
Possuir objetos é ter coisas que são minhas. Roupa, livro, caneta, utensílio, um copo preferido, um caderno. É ter sensação de posse saudável e de identidade material. Não é acumular tralha, é ter objetos que expressam quem eu sou e me dão sensação de lugar no mundo.
Tire isso de alguém, como se faz em muitas penitenciárias, e você desorganiza a psique. Uma gaveta com coisas próprias já muda a forma como o cérebro se percebe.
A necessidade aparece cedo, no brinquedo favorito e no meu quarto, e se refina ao longo da vida em roupa, carro, casa, ferramenta de trabalho, livro e coleção. É o impulso de ter bem material que funcione como extensão do eu, dando sensação de identidade, segurança e valor.
A ausência de objetos que reflitam quem a pessoa é abre espaço para a persona.
O desapego forçado não é evolução
Este é o ponto que contraria o discurso corrente do mercado de desenvolvimento pessoal, e é trabalhado no grupo de estudo do MDP Estudos.
Existe uma teoria terapêutica que prega o desapego material como meio de evolução espiritual. Praticado à força, ele produz o oposto do que promete: gera uma persona de falsa iluminação e destrói a identidade da pessoa.
A evolução real acontece de trás para frente. Ao chegar naturalmente ao Grupo 5, a pessoa deixa de dar relevância ao objeto, sozinha e sem esforço. Ninguém sobe de faixa jogando coisa fora. Joga-se coisa fora porque já subiu.
Por isso é saudável e recomendado que as pessoas configurem de propósito os próprios pertences para expressar quem elas são.
Na conduta, isso significa que retirar objeto de alguém em déficit é agravar o quadro, mesmo com a melhor intenção espiritual.
Nota abaixo de 4: sem âncora
Quem não tem objeto que reflita a própria personalidade fica sem âncora do senso de si, e vulnerável a adotar uma persona social artificial. Sem referência material de quem se é, adota-se a referência de fora.
Aparece em quem vive com o que sobrou dos outros, em quem nunca escolheu nada do que usa, e em quem foi privado por instituição. E aparece também, com força, em quem não se permite ter.
Não se permitir ter
Debate do grupo de estudo, com três relatos na mesma sessão. É a forma mais silenciosa da falta, porque não é falta de dinheiro, é falta de permissão.
A pessoa vem de uma família com história de escassez. Quando ela ascende, colide com essa história por lealdade inconsciente, e sabota o próprio acesso ao que conquistou. Não é escolha, e quase sempre só é entendido anos depois.
Destruir o que conquistou
Acidente repetido, perda repetida, negócio que desanda sempre no mesmo ponto. Costuma ter correlação de tempo com a proximidade da família de origem.
Comprar mal para si
Calçado que machuca, cadeira ruim para oito horas de trabalho, sempre a opção mais barata para si e a melhor para os outros. Vem de ensinamento de economia rígida que nunca foi revisado.
Dar primeiro para poder ter
A pessoa presenteia largamente quem ficou para trás, e só então se autoriza a gastar consigo sem culpa. O presente é o pedágio.
Aqui a necessidade encontra o cálculo familiar. Trabalhar só a necessidade não resolve, e trabalhar só a família também não. É preciso nomear a lealdade e devolver a permissão.
Nota acima de 7: o objeto no lugar da pessoa
Acúmulo compulsivo e dependência emocional extrema do objeto. É a pessoa que não deixa ninguém encostar num relógio, e a que vive exclusivamente para consumir.
Neste ponto o objeto parou de expressar identidade e passou a substituí-la. E a perda de bem dispara medo, vergonha e sensação de humilhação, porque não se perdeu uma coisa, perdeu-se um pedaço do eu.
Por que o objeto entra na conta do Self
O objeto transicional
Os primeiros objetos ajudam o bebê a lidar com a ausência dos cuidadores e a construir um eu separado. Na Virtologia, isso se prolonga na forma como o adulto usa objetos para acalmar faltas.
O Self estendido
As posses compõem o Self estendido. O que a pessoa tem não está do lado de fora dela do jeito que parece.
Meu e teu
O desenvolvimento da permanência do objeto e da posse na infância é a base da vivência de meu canto e minhas coisas.
O sistema de recompensa, núcleo accumbens e área tegmental ventral, ativa na antecipação e na aquisição, gerando sensação de conquista. O córtex pré-frontal avalia utilidade, custo e consequência, e integra a posse a metas de longo prazo. Quando ele está fraco, cede ao impulso de consumo. O sistema límbico, amígdala e hipocampo, associa objeto a memória afetiva e a ameaça de perda.
A mesma necessidade, cinco leituras
Esta quebra é de Eduardo Casarotto, no próprio capítulo.
Possuir é instintivo e funcional para sobrevivência e competição. Acumula recurso, guarda tudo, retém por medo.
Compra e acumula para prazer e conforto sensorial. Gratificação imediata, consumo impulsivo.
O objeto vira símbolo de status e persona de bem sucedido. Carro, marca, casa e celular são usados para alimentar importância.
Começa a enxergar o vazio do materialismo. Luta com apego, acumulação e bagunça, tenta desapegar e ainda sofre ao perder.
Possui de forma consciente e desapegada. Objeto é ferramenta de propósito e utilidade, não de identidade. O valor está no Self, não no que se tem.
Onde a pessoa está, e o que se acopla
A orientação é harmonizar a partir de onde o indivíduo está, e nunca trabalhar necessidade sozinha.
As virtudes
Desapego, Humildade e Utilidade. O trabalho é ver o próprio valor além do que se tem.
Primeiro o mínimo
Garantir um mínimo de objetos e de espaço próprios. Só depois estimular o grupo seguinte: identidade, conhecimento, propósito.
A potencialização
Levantado no grupo de estudo: apoiar a individuação estimulando na prática possuir objetos e diversão ao mesmo tempo. Atender duas ou três necessidades em conjunto cria suporte mútuo no tratamento.
A versão para a sessão
"Ter coisa sua não é consumismo. Seu cérebro usa objeto para saber quem você é. É por isso que quando alguém mexe nas suas coisas sem pedir, dá uma reação desproporcional ao tamanho do objeto. Não é o objeto. É que ele estava fazendo parte de você."
"E cuidado com quem te disser que se livrar das coisas é evoluir. Funciona ao contrário. Quem chega lá em cima naturalmente para de ligar para objeto. Quem força o desapego lá embaixo só perde a referência de quem é e ganha um personagem de pessoa iluminada."
"Agora eu quero olhar outra coisa com você. Você compra bem para os outros e mal para você. Isso raramente é dinheiro. Costuma ser permissão. Alguém, em algum momento, ensinou que ter coisa boa te separaria da sua gente."
O objeto não substitui a identidade e não é inimigo dela. É âncora enquanto a identidade não se sustenta sozinha, e ferramenta depois que ela se sustenta.
Para medir a nota
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