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MDP Estudos

Necessidades Humanas · Grupo 2

Possuir Objetos: a identidade que se apoia no material

Uma gaveta com coisas próprias já muda a forma como o cérebro se percebe.

Ter coisas que são minhas é âncora do senso de si, não consumismo. Tirar isso de alguém desorganiza a psique. E o desapego forçado, vendido como evolução espiritual, faz o caminho ao contrário: destrói identidade e constrói persona.

Objeto transicionalSelf estendidoWinnicottBelkDesapego
Seção 01 · o que é

A caneca que é sua

Existe uma caneca no armário que é sua. Se alguém usa, incomoda. Não é apego a louça. É que aquele objeto, de tanto ser usado por você, virou um pedaço de fora do seu senso de quem você é.

Possuir objetos é ter coisas que são minhas. Roupa, livro, caneta, utensílio, um copo preferido, um caderno. É ter sensação de posse saudável e de identidade material. Não é acumular tralha, é ter objetos que expressam quem eu sou e me dão sensação de lugar no mundo.

A prova pela retirada

Tire isso de alguém, como se faz em muitas penitenciárias, e você desorganiza a psique. Uma gaveta com coisas próprias já muda a forma como o cérebro se percebe.

A necessidade aparece cedo, no brinquedo favorito e no meu quarto, e se refina ao longo da vida em roupa, carro, casa, ferramenta de trabalho, livro e coleção. É o impulso de ter bem material que funcione como extensão do eu, dando sensação de identidade, segurança e valor.

A ausência de objetos que reflitam quem a pessoa é abre espaço para a persona.

Seção 02 · a armadilha

O desapego forçado não é evolução

Este é o ponto que contraria o discurso corrente do mercado de desenvolvimento pessoal, e é trabalhado no grupo de estudo do MDP Estudos.

Existe uma teoria terapêutica que prega o desapego material como meio de evolução espiritual. Praticado à força, ele produz o oposto do que promete: gera uma persona de falsa iluminação e destrói a identidade da pessoa.

A ordem é inversa

A evolução real acontece de trás para frente. Ao chegar naturalmente ao Grupo 5, a pessoa deixa de dar relevância ao objeto, sozinha e sem esforço. Ninguém sobe de faixa jogando coisa fora. Joga-se coisa fora porque já subiu.

Por isso é saudável e recomendado que as pessoas configurem de propósito os próprios pertences para expressar quem elas são.

Na conduta, isso significa que retirar objeto de alguém em déficit é agravar o quadro, mesmo com a melhor intenção espiritual.

Seção 03 · a falta

Nota abaixo de 4: sem âncora

Quem não tem objeto que reflita a própria personalidade fica sem âncora do senso de si, e vulnerável a adotar uma persona social artificial. Sem referência material de quem se é, adota-se a referência de fora.

Aparece em quem vive com o que sobrou dos outros, em quem nunca escolheu nada do que usa, e em quem foi privado por instituição. E aparece também, com força, em quem não se permite ter.

Seção 04 · a fidelidade familiar

Não se permitir ter

Debate do grupo de estudo, com três relatos na mesma sessão. É a forma mais silenciosa da falta, porque não é falta de dinheiro, é falta de permissão.

A pessoa vem de uma família com história de escassez. Quando ela ascende, colide com essa história por lealdade inconsciente, e sabota o próprio acesso ao que conquistou. Não é escolha, e quase sempre só é entendido anos depois.

A colisão

Destruir o que conquistou

Acidente repetido, perda repetida, negócio que desanda sempre no mesmo ponto. Costuma ter correlação de tempo com a proximidade da família de origem.

O boicote miúdo

Comprar mal para si

Calçado que machuca, cadeira ruim para oito horas de trabalho, sempre a opção mais barata para si e a melhor para os outros. Vem de ensinamento de economia rígida que nunca foi revisado.

O mecanismo de permissão

Dar primeiro para poder ter

A pessoa presenteia largamente quem ficou para trás, e só então se autoriza a gastar consigo sem culpa. O presente é o pedágio.

Onde isso é lido

Aqui a necessidade encontra o cálculo familiar. Trabalhar só a necessidade não resolve, e trabalhar só a família também não. É preciso nomear a lealdade e devolver a permissão.

Seção 05 · o excesso

Nota acima de 7: o objeto no lugar da pessoa

Acúmulo compulsivo e dependência emocional extrema do objeto. É a pessoa que não deixa ninguém encostar num relógio, e a que vive exclusivamente para consumir.

Neste ponto o objeto parou de expressar identidade e passou a substituí-la. E a perda de bem dispara medo, vergonha e sensação de humilhação, porque não se perdeu uma coisa, perdeu-se um pedaço do eu.

Seção 06 · a base científica

Por que o objeto entra na conta do Self

Winnicott

O objeto transicional

Os primeiros objetos ajudam o bebê a lidar com a ausência dos cuidadores e a construir um eu separado. Na Virtologia, isso se prolonga na forma como o adulto usa objetos para acalmar faltas.

Belk

O Self estendido

As posses compõem o Self estendido. O que a pessoa tem não está do lado de fora dela do jeito que parece.

Piaget

Meu e teu

O desenvolvimento da permanência do objeto e da posse na infância é a base da vivência de meu canto e minhas coisas.

No cérebro

O sistema de recompensa, núcleo accumbens e área tegmental ventral, ativa na antecipação e na aquisição, gerando sensação de conquista. O córtex pré-frontal avalia utilidade, custo e consequência, e integra a posse a metas de longo prazo. Quando ele está fraco, cede ao impulso de consumo. O sistema límbico, amígdala e hipocampo, associa objeto a memória afetiva e a ameaça de perda.

Seção 07 · nas faixas de evolução

A mesma necessidade, cinco leituras

Esta quebra é de Eduardo Casarotto, no próprio capítulo.

Primitiva

Possuir é instintivo e funcional para sobrevivência e competição. Acumula recurso, guarda tudo, retém por medo.

Sensação

Compra e acumula para prazer e conforto sensorial. Gratificação imediata, consumo impulsivo.

Pré-desenvolvimento

O objeto vira símbolo de status e persona de bem sucedido. Carro, marca, casa e celular são usados para alimentar importância.

Consciência parcial

Começa a enxergar o vazio do materialismo. Luta com apego, acumulação e bagunça, tenta desapegar e ainda sofre ao perder.

Sentir

Possui de forma consciente e desapegada. Objeto é ferramenta de propósito e utilidade, não de identidade. O valor está no Self, não no que se tem.

Seção 08 · o manejo

Onde a pessoa está, e o que se acopla

A orientação é harmonizar a partir de onde o indivíduo está, e nunca trabalhar necessidade sozinha.

Se vive muito em possuir

As virtudes

Desapego, Humildade e Utilidade. O trabalho é ver o próprio valor além do que se tem.

Se está em déficit

Primeiro o mínimo

Garantir um mínimo de objetos e de espaço próprios. Só depois estimular o grupo seguinte: identidade, conhecimento, propósito.

Casado com outra necessidade

A potencialização

Levantado no grupo de estudo: apoiar a individuação estimulando na prática possuir objetos e diversão ao mesmo tempo. Atender duas ou três necessidades em conjunto cria suporte mútuo no tratamento.

Seção 09 · como eu explico isso

A versão para a sessão

Palavra por palavra

"Ter coisa sua não é consumismo. Seu cérebro usa objeto para saber quem você é. É por isso que quando alguém mexe nas suas coisas sem pedir, dá uma reação desproporcional ao tamanho do objeto. Não é o objeto. É que ele estava fazendo parte de você."

"E cuidado com quem te disser que se livrar das coisas é evoluir. Funciona ao contrário. Quem chega lá em cima naturalmente para de ligar para objeto. Quem força o desapego lá embaixo só perde a referência de quem é e ganha um personagem de pessoa iluminada."

"Agora eu quero olhar outra coisa com você. Você compra bem para os outros e mal para você. Isso raramente é dinheiro. Costuma ser permissão. Alguém, em algum momento, ensinou que ter coisa boa te separaria da sua gente."

A regra que fica

O objeto não substitui a identidade e não é inimigo dela. É âncora enquanto a identidade não se sustenta sozinha, e ferramenta depois que ela se sustenta.

Perguntas ao cliente

Para medir a nota

01Quais objetos na sua casa são realmente seus, escolhidos por você?
02Se você olhar em volta agora, alguém que não te conhece saberia alguma coisa sobre você?
03Você compra melhor para os outros do que para você? Por quê?
04O que sua família dizia sobre gente que tem coisa boa?
05Tem algum objeto que, se você perdesse, você não saberia lidar?